terça-feira, 1 de agosto de 2017

O mágico de Oz de L. Frank Baum

O último ano foi muito curioso. Me peguei lendo alguns dos clássicos da literatura infantil. Crônicas de Nárnia, Hobbit, A fantástica fábrica de chocolate, O mágico de Oz... Me surpreendi. Positivamente.

Peço licença para compartilhar minhas impressões. Preparem os sapatos de prata para não perder seu caminho.  Hoje é o dia de O mágico de Oz.

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Escrito pelo L. Frank Baum em 1900, este é um livro que marcou gerações e marcou profundamente memórias. O mágico de Oz é o primeiro de uma série de 14 livros,  uma obra icônica. Mais do que um clássico, ou um conto de fadas, esta história é um símbolo consolidado da cultura pop. Desde seu lançamento, foi adaptado diversas vezes para o cinema. Além disso, encontram-se com facilidade diversas referências ao universo e aos personagens de Oz em diversas outras obras.

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É difícil encontrar alguém que não conhece a história de Dorothy, ou do ciclone que levou sua casa, ela e Totó para uma terra misteriosa. "Não estamos mais em Kansas!". Muitos já sabem que, para voltar para casa, ela procura por um poderoso mágico que mora em uma cidade misteriosa. Segue assim por um caminho de tijolos amarelos na companhia de um leão que deseja ter coragem, um homem de lata que deseja ter um coração e um espantalho que quer ter um cérebro, ao invés de palha seca.

Muitos já conhecem essa história e podem estar se perguntando se vale a pena ler o livro e qual a graça que você poderia encontrar na leitura do deste livro.  E parafraseando Lisbela - e uma pá de outras pessoas por aí - a graça não está em saber o que acontece... mas como acontece e quando acontece.

O que mais me encanta na escrita de Baum é jeito de criar imagens. Muitas vezes, o estado afetivo de um personagem se confunde ou se propaga para o que está ao seu redor. Assim, o humor de tia Em é acinzentado assim como suas roupas, sua casa, sua pele e seus olhos. "[...] ela também foi modificada pelo sol e pelo vento, que apagaram a centelha que existiam em seus olhos [...] Desbotaram o rubor das suas faces e dos seus lábios, que também ficaram cinzas. Era magra e seca, e não sorria mais". Em Oz, o acinzentado da vida dura e infértil que Dorothy conhecia no Kansas se colore. A terra de Oz brilha em cores vivas. o caminho de tijolos amarelos leva à cidade de Esmeralda, onde as cores das flores são intensas e hipnóticas, os frutos grandes e suculentos.

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A narrativa é composta por paradoxos e contrastes que geram uma tensão entre as realidades subjetivas de cada personagem e a realidade objetiva que é compar-tilhada por eles. Por que um leão que se arrisca para salvar os outros, ruge alto, se coloca na linha de frente e se voluntaria para lutar, mas se diz covarde e deseja ter coragem? Por que um homem de lata que se preocupa, e chora tanto pelas injustiças e maus atos, diz que não sente nada e deseja ter um coração? Ou por que o mais criativo e engenhoso dos personagens se diz burro e deseja um cérebro?  Por que Dorothy quer voltar tanto para sua casa cinza e dura? O autor é perspicaz e nos mostra que, às vezes, o que mais desejamos está embaixo de nosso nariz - ou nos nossos pés.

Os desafios que Dorothy e seus amigos enfrentam vêm sob medida para testar sua persistência, sua coragem, sua empatia e sua inteligência. O que nos faz pensar que, às vezes, são os desafios da vida que nos permitem nos confrontarmos com nossas maiores qualidades.

É interessante ver como a relação entre os personagens vai se desenvolvendo e se intensificando - alguns podem se chocar com a facilidade de alguns dos companheiros de viagem deixar para trás alguém que se atrapalha para remar ou que dorme no jardim de papoulas (capítulo O campo das papoulas da morte). Mas se despedir de alguém vai se tornando mais difícil conforme vamos conhecendo melhor os personagens.  Ao longo de suas aventuras, eles vão descobrindo que há uma diferença entre fazer uma jornada com outras pessoas e fazer uma jornada juntos.

Nossa convite de hoje é:  leiam este conto moderno e compartilhem conosco o que vocês acharam de mais bonito nessa obra ;D

Ficha técnica
O mágico de Oz
Escritor: L. Frank Baum
Ilustrador: W. W. Denslow
Tradutor: Sergio Flaksman
Editora: Zahar
Ano de edição: 2013

terça-feira, 25 de julho de 2017

Confessionário

Vamos falar sobre nossos maiores defeitos enquanto mediadores? Este texto é para você, especialmente para você, aquele que não deixou de ser um simples e mero humano apesar de ter se tornado mediador.

Por mais vergonhoso que seja admitir, nós mediadores cometemos erros – vergonhosos, escabrosos e cabeludos. Daquele tipo de erro que nos deixa até envergonhados de escrever no diário e coramos para nós mesmos na frente do espelho. Hoje, trago uma coletânea dos deslizes mais comuns entre os mediadores.

Antes de mais nada, queria ressaltar que desses pequenos – às vezes grandes – deslizes, os mediadores mais experientes não estão vacinados.
Então...

OPS!
Nessa categoria, há os deslizes mais comuns na vida de um mediador – que não queremos que nossa coordenadora saiba – mas Eileen, ops!

1) Ops-Esqueci que tinha mediação hoje. Às vezes, o despertador não toca, a rotina muda inesperadamente e ops!

2) Ops-Escolhi o livro de última hora e deu ruim. Já aconteceu comigo e provavelmente já aconteceu com você... Um dia escolhemos o livro de última hora – tipo 5 minutos antes da contação. Ou mais vergonhoso, até escolhemos o livro antes, mas não o lemos  com antecedência e chegamos na contação com um enorme de um kinder-ovo.

Não sabemos que intervenções fazer nem o que perguntar... Eita, e quando é livro rimado? Falta prosódia, ritmo e musicalidade. Vejo que esse tipo de erro causa tanta vergonha que é extinto depois de uma ou duas vezes.


3) Ops-Eu segui ao pé da letra as dicas de alguém e fiz perguntas em todas as páginas e uma criança gritou para mim: PÁRA DE PERGUNTAR, TIA, EU QUERO OUVIR A HISTÓRIA! É... temperança é uma virtude trabalhosa, mas desejada aos mediadores.

4) Ops-Eu fiz uma contação no automático... Esta é escandalosa! Estou até com vergonha de escrever. Em dias cansativos, engatamos no automático e narramos simplesmente a história. O maior do pecados é quando deixamos escapar um “qual a moral da história?

5) E o clássico...  Ops-até hoje não aprendi o nome das crianças... nem da professora. SEM COMENTÁRIOS!

NÃO REGISTRAMOS!


O maior deslize que cometemos é que simplesmente não compartilhamos e divulgamos a Leitura Dialógica do jeito que ela merece. Não fazemos bom uso de nossas ferramentas, como este blog. As melhores experiências muitas vezes não chegam até aqui por que não fazemos registro delas. Essa é hora de nossos leitores darem um grito e brigarem conosco.
Vocês e a LD merecem o melhor de nós.

CIÚMES e POSSESSIVIDADE



O ciúmes patológico é frequente em três situações:

1) Em um dia ensolarado, você fez uma contação perfeita: o livro perfeito, as intervenções perfeitas com as crianças perfeitas, tudo se encaixou. A experiência foi tão única, tão soberba que você quer manter ela só para você. E você quer atear fogo na pessoa que ousar fazer mediação desse livro, principalmente por que ela pode fazer uma contação melhor do que você...

2) Um dia você encontra, na estante de um sebo/livraria aquele livro, aquele livro especial que foi feito para você, fala da sua história. Você compartilha sobre ele... mas essas coisas da alma se incendeiam feito faísca em palha. E quando você vê, 35 mil pessoas também acham o livro o máximo. Ele de repente não é mais exclusivo, nem tão especial.



3) Sentimos ciúmes de nossa turminha. Nossa turminha é a mais inteligente, esperta, alegre, divertida, espontânea... E ai do nosso colega que defenda que é a dele. Vixi, e quando pedimos para um colega nos substituir e na semana seguinte as crianças dizem que ele é muito mais legal do que você... Ai, meu coração!

MAS...

Olha, a editora  pediu para eu colocar um mas e terminar com um tom mais otimista.

Mas.. não vou mentir, se você pecou assim, você provavelmente perdeu seu lugar no céu dos mediadores. O lado bom é que... há tempo para redimir, salvar sua alma e quem sabe frequentar o lugar onde estão os maiores contadores de histórias.

A receita é simples. Faça mais mediações! Pode parecer paradoxal, mas a ordem médica é dobre os seus erros e multiplique em 100 seus acertos. Não é nada fácil ser um mediador. 

Quando estamos em roda com as crianças, elas, suas histórias e suas perguntas é o que há de mais importante, por isso não tenha dúvida, a leitura dialógica exige 100% de nossa atenção e afeto. Não tenhamos medo de errar e estar cada vez mais próximo e presente das crianças. Sabendo ouvi-las, sabendo provocá-las e sabendo mediar sua relação com a literatura da forma mais amorosa possível.


Com certeza, você já passou por isso compartilhe com a gente – ainda que de modo anônimo - qual foi seu maior erro durante uma contação. Qual foi seu maior deslize?

terça-feira, 18 de julho de 2017

A rainha das cores contado por 3 princesas...

Esse é o relato compartilhado de uma contação feita para uma turma inteira no escuro!

Inicialmente, chegamos e nos organizamos conforme o combinado e utilizamos um projetor para facilitar a visualização das ilustrações do livro. Logo então, montamos uma roda com as crianças e conversamos sobre o que elas gostavam -só para quebrar o gelo-, desde animais, comidas, roupas, livros ou esporte, qualquer coisa que fosse!

Ao pensarmos nessa dinâmica, tivemos como objetivo trabalhar a questão do poder, que o tema iria sugerir. Afinal, ao se falar de reis e rainhas, geralmente é a primeira noção que nos vem à mente. E, por isso, levamos uma coroa dourada de plástico para que cada um colocasse na hora em que fosse falar perante todo o grupo. Isso foi feito para instigar uma percepção de como um objeto ou uma posição social podem impor tanto poder e, no contexto descrito, chamar ou prender a atenção. Todos tiveram um momento como “superior”, donos da palavra e do momento.

A partir daí, começamos a introduzir o tema e o livro daquele dia: A rainha das cores. Já de cara perguntamos se as crianças conheciam alguma rainha, esperando respostas como : “Sim, a rainha má da Branca de Neve”, ou seja, esperávamos rainhas de contos de fada e de estórias infantis. Porém, as crianças nos surpreenderam respondendo : “Sim, conhecemos a rainha da Inglaterra, por exemplo”. Superando assim nossas expectativas e trazendo todo um caráter político e mais real a estória do livro daquele dia.



Na narrativa de poucas frases, as cores representam os sentimentos da rainha, personalidade que manda e desmanda, mas que na estória se viu sem autoridade sobre as cores. Essas cores somem ao longo de algumas páginas, vindo a ocasionar uma grande tristeza para a rainha. Esse momento é descrito no livro como “momento em que tudo ficou cinza”. Quero destacar que, por coincidência, ao entrarmos nesse trecho do livro, uma chuva muito forte começou a cair. De uma forma, que em minutos a energia acabou. Um apagão geral que nos deixou sem projetor e portanto sem imagens ou boa iluminação.

O apagão acabou com o que estava planejado para o dia, ou seja, nosso “plano A”. Dessa forma, fomos forçadas a um improviso que na verdade saiu muito bom, pois aproveitamos o momento para tratar da metáfora “ficou tudo cinza”, justamente como nos encontrávamos em sala de aula, já quase no escuro. Portanto, retomamos a mediação e fomos mostrando o livro para que todas as crianças pudessem ver e inclusive aproveitamos um pouco da luz do entardecer todavia chuvoso para terminar nossa conversa.

Com isso, a história seguiu e páginas depois a rainha começou a chorar de tristeza e curiosamente suas lágrimas saíram todas coloridas. Ocorreu então a volta das cores ao seu reino! Uma alegria para todas as crianças que abriram um grande sorriso ao escutar essa parte.

Foi interessante observar que as crianças interpretaram o choro justamente como uma forma de expressar sentimentos sendo bons ou ruins e, consequentemente, um alívio. Inclusive, entenderam o choro como algo preciso e muitas vezes necessário sendo você um menino, uma menina ou até mesmo uma rainha.


Ficha técnica
A rainha das cores
Autora: Jutta Bauer
Editora: O bichinho de conto

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Intensiva: Não nos calemos!



Após algumas semanas fora do ar, os trabalhos em nossa revista digital foi retomado!
Confira nossa nova intensiva que trata sobre temas difíceis e crianças em situação de vulnerabilidade social.

"Há certas coisas que são inexplicáveis, guerras, brigas, violência, fome, desigualdade social, abandono. Nem sempre, nossa casa é um lar."

https://www.revistalivrosabertos.org/single-post/2017/06/01/Intensiva-N%C3%A3o-nos-calemos











Acompanhe nosso cronograma e participe de nossas matérias, enviando feedback, ideias e sugestões para nosso e-mail: livrosabertos01@gmail.com


domingo, 4 de junho de 2017

Diário do Contador - A viagem de Francesca Sanna

Esta semana, eu levei um livro que estava desde janeiro na minha estante esperando ser contado. Eu lembro da primeira vez que o li, entre as estantes de uma grande livraria. Lágrimas discretas escorreram pelo meu rosto, e quando fui ao caixa, meu nariz estava vermelho e inchado.

O caixa perguntou: “está tudo bem, moça?”. E com um suspiro eu respondi, sem chorar, que eu achara um dos livros mais bonitos do mundo.

Eu não sei que fim deu, e se o caixa foi atrás de minha indicação, mas sei que esse é um livro que não merece ficar escondido em estantes. Sabia também que eu precisava de um tempo sozinha com ele, conhecendo, lendo e relendo e me preparando para uma contação.  

Estou falando de A viagem, ilustrado e escrito por Francesca Sanna. Sinceramente, só de ver a capa meu pulso se acelera! Premiado pela Sociedade dos Ilustradores de Nova York e acalentador de corações, o livro chegou ao Brasil em uma belíssima edição. Trata-se de um livro sensível, atual e intenso. Francesca, inspirada na história de algumas garotas que conheceu, narrou a história de uma família que foge de seu país por causa de uma guerra e embarca em uma grande aventura, a procura de um novo lar.

A imigração, mais do que questão de vestibular, é um tema que toca questões profundas, como convivência entre pessoas, respeito à diversidade, globalização. Podemos nos enganar pensando que é um tema distante da realidade brasileira, mas não podemos perder de vista as ações do governo atual com a chamada Lei da Migração, recentemente aprovada pelo Congresso Nacional. Isso sem falar do histórico do Brasil (um país de imigrantes) e dos próprios movimentos populacionais e migratórios do nosso país.

Após esse adendo, voltemos ao livro. Suas ilustrações parecem ser feitas não apenas para o imaginário infantil, mas parece que nasceu das narrativas e olhar de uma criança. A guerra é retratada como uma grande sombra, os agentes da fronteira são enormes e assustadores – uma das crianças até os identificou como aliados das sombras! Além disso, há forças e pessoas que auxiliam nessa aventura, também são retratados como criaturas enormes e elementais, como se fossem misteriosos e poderosos demais para serrem compreendidos pelo nossa pequena criança protagonista. 

Mas nem tudo, é sombrio e incerto nesse livro. Ao longo das páginas, vemos laços de amor e esperança que se aperta e se fortalece entre mãe e filhos.


Muito do que fica implícito no livro é compreendido pelas crianças, como a atmosfera de perseguição e medo, o preconceito aos imigrantes, a dureza daqueles agentes de guerra que não se compadecem com o destino de civis e crianças.

As crianças para quem contei tem 7 e 8 anos, e elas já intuem a intricada e complexa rede de poder e de segredos por trás de uma guerra. “Tia, numa guerra, tem um monte de bombas e armas, muita gente morre e muita gente é machucada. A cidade é destruída... e depois da guerra, [eles] falam que não foi nada, que foi só um terremoto e mandam que tudo volte ao normal”. Algum dos meninos falou sobre o perigo de fugir de uma guerra, e logo estávamos falando sobre a segunda guerra mundial. E, sim, eles falaram sobre Hiroshima e o absurdo de atacar uma cidade inocente. “Eu não entendo tia, porque eles construíram uma bomba que pode destruir o mundo?!”. Fui sincera com as crianças “eu também não entendo”.

Afinal, se estourasse uma guerra aqui no Brasil, o que vocês fariam? Para onde iriam?

“Eu iria para Itália [...] porque lá tem os carros mais rápidos”.
“Eu iria para a Itália também porque lá poderia andar de snowboard”.
“Eu não tia, eu iria para os Estados Unidos [...] porque tenho um tio que mora lá, e Estados Unidos tem muita bomba para se proteger”. “Iria para Hollywood virar atriz!”.
“Eu iria para a China que é bem longe daqui”.

Nesta contação com as crianças, vivi grandes paradoxos. Por mais que para as crianças fosse consenso que a família do livro pudesse vir para o Brasil, que é um lugar seguro e sem guerras. Aos poucos tornou-se impossível ignorar as pequenas guerras que temos no Brasil, e a falta de segurança que temos aqui.
“Não posso sair à noite, porque é perigoso, tia”
“É mesmo, muito perigoso lá”, outra criança concordou.
“Tem gente má que fazem coisas ruins com crianças”.
“Já vi uma mulher na rua sendo perseguida”
“Já ouvi som de tiro, tia”.


No momento que eu peguei esse livro, já sabia que as crianças viajariam com ele e veriam cenas da própria história. Não perca essa oportunidade de conversar mais sobre os refugiados do mundo e também os momentos que sua criança deseja refúgio.

Meus votos para que sempre possamos encontrar um lugar seguro para sermos nós mesmos e fazermos nossa própria história, ainda que para isso tenhamos que nos aventurar por novos ares.


Ficou curioso? Quer saber mais sobre esta obra? Confira nossas dicas de mediação em nossa revista digital.
https://www.revistalivrosabertos.org/single-post/2017/06/01/A-viagem-Francesca-Sanna
Confira partes da história em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=81&v=ZRHlyIcFH3k

Escrito por: Júlia Gisler
Ficha técnica
Título: A viagem
Autora e ilustradora: Francesca Sanna
Tradutor: Fabrício Valério
Editora: Vergara & Riba Editoras

Ano de edição: 2016

terça-feira, 9 de maio de 2017

O Acervo Indica: Caso de detetive

Histórias com detetives como protagonistas são muito comuns, e não é para menos. Essas histórias geralmente são intrigantes e despertam no leitor uma forte curiosidade. Naturalmente existem grandes detetives da literatura que já podem ser considerados clássicos, como Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, ou Hercule Poirot e Miss Marple de Agatha Christie.

A literatura infanto-juvenil também não fica para trás, e mesmo que muitas dessas histórias ainda não sejam clássicos, elas com certeza têm uma dose extra de diversão e descontração. Então, para essa edição do Acervo Indica, vamos apresentar uma série de livros sobre um grupo de jovens detetives muito especial, A Turma dos Tigres.

Essa série, escrita pelo austríaco Thomas Brezina, tem como personagens principais os jovens Patrick, forte como um tigre, Brigite (ou Gigi) incansável como um tigre, e Lucas, esperto como um tigre. As histórias são incríveis, mas o grande diferencial é a presença do 4º detetive, o próprio leitor, que através de vários elementos, é convidado a imergir de forma muito mais profunda na trama dos livros, seja por meio de perguntas que são reveladas por meio de um decodificador ou até mesmo pela ficha, igual à dos outros detetives e do próprio autor que o leitor pode preencher. Vamos aos livros!







1)      O safári dos monstros







Nesse livro os três amigos são convidados por um velho amigo da mãe de Lucas a irem visitar, na África, uma reserva proteção a animais em extinção. Mas durante sua viagem criaturas estranhas começam a aparecer, será que são monstros? E como explicar os acontecimentos incomuns que começam a acontecer? Será que é uma armação de alguém que está planejando caçar os animais da reserva? Para descobrir as respostas para essas perguntas você está mais do que convidado a se juntar à Turma dos Tigres.

Ficha Técnica:
·         Autor: Thomas Brezino
·         Ilustrador: Werner Heymann
·         Tradutora: Maria Estela Heider Cavalheiro
·         Editora: Ática
·         Coleção: Olho no Lance


2) Vítima de uma armadilha






Os Tigres estão visitando Nova Iorque, a convite do pai de Patrick, quando este acaba sendo confundido com um astro juvenil e é sequestrado por engano. Gigi e Lucas precisam explorar a cidade e descobrir as armações do bandido antes que Patrick seja obrigado a fazer uma escolha difícil: participar de um crime ou então ser morto pelo criminoso. Novamente você é chamado a se juntar aos detetives para salvar seu colega Tigre e desvendar os planos do bandido, sem se perder no mundo de fantasia que compõe o cenário dessa aventura.

Ficha Técnica:
·         Autor: Thomas Brezino
·         Ilustrador: Werner Heymann
·         Tradutora: Renata Dias
·         Editora: Ática
·         Coleção: Olho no Lance



3)      O avião fantasma


 
  
Misturando tesouros vikings, superstições, histórias de fantasmas e a curiosidade dos jovens tigres, essa aventura nos traz as típicas perguntas que nos fazem mergulhar de cabeça na história, além de um fator a mais, mensagens em código Morse. Tudo isso se passa quando Lucas, Patrick e Gigi visitam a Noruega e avistam um suposto avião fantasma, várias mensagens esperando para serem decifradas, e até mesmo algumas ameaças. O fim da história reserva ótimas descobertas, que chegam até ao passado viking do país.

Ficha Técnica:
·         Autor: Thomas Brezino
·         Ilustrador: Werner Heymann
·         Tradutora: Renata Dias
·         Editora: Ática
·         Coleção: Olho no Lance


Então, depois de conhecer essas histórias o que você está esperando para visitar nosso acervo, a biblioteca ou livraria mais próxima e se juntar de vez à Turma dos Tigres? Por que eu sei que você, assim como nossos protagonistas, tem qualidades dignas de um bom tigre!
Gabriela M.

“Somos os Tigres
Somos os tais,
Vencemos qualquer parada

O que você quer mais?!”

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Dica de Leitura: Sete minutos depois da meia-noite

Procurando por um livro bom? Aqui você encontra as melhores dicas de leitura, podemos não ser críticos literários renomados ou especialistas em literatura russa, mas nosso critério é infalível.


O AFETO

Todas indicações aqui vem de nossas boas experiências com a leitura, os livros que indicamos são doces companheiros de jornada. Indicamos aquele que nos proporcionou momento de inigualável prazer, aquele que mobilizou emoções, aquele que foi como água fresca em um dia quente.

A verdade é que acreditamos, que uma vez que esses livros chegaram até a gente e fizeram tanta bagunça e tanta alegria, temos um dever com ele. Temos que passar sua história adiante.

Patrick Ness, escritor do companheiro que indicamos hoje, crê nisso também, não só ele deu vida aos personagens que haviam se perdido após a morte de sua criadora - a escritora Siobhan Dowd. Como também reinventou o enredo, fazendo de um personagem que é a própria história encarnada.

Essa história é viva e intensa, fala tanto de uma realidade externa dura, quanto de um mundo interno bagunçado e hostil, é um livro que abre portas para falar sobre temas difíceis. Que temas são esses?
Mortalidade, bullying, divórcio, traição, agressividade, niilismo, desesperança.

Como falar sobre tudo isso com sutileza? Como Patrick fez isso? Só lendo para saber, mas vamos fazer um esforço para convencê-los a conhecer esta narrativa onírica. Começamos com Conor O'Malley e o Monstro.

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A vida de Conor não está nada fácil, nem pelo dia - em que tem que enfrentar a agressão desenfreada de seus colegas de sala, as tarefas do lar, uma amiga fofoqueira e a enfermidade de sua mãe - nem de noite - em que todos os dias é abalado e atormentado por um pesadelo. Não qualquer pesadelo, mas aquele pesadelo, que lhe tira o chão e lhe coloca diante do abismo.

Para piorar tudo, aquele teixo, tão grandioso e assustador, que fica na frente do cemitério saí de sua então certeira imobilidade e começa perseguir Conor.

Sua proposta é desconcertante: "Eu lhe contarei três histórias [...] E quando eu terminar minhas três histórias, você me contará a quarta.". Conor responde o que muitos mediadores de primeira viagem dizem: "Não sou bom com histórias" ao que o Monstro replica: "Você me contará a quarta história, e ela será a verdade."

E se eu não contar? - Perguntou Conor.
O monstro abriu um sorriso malvado novamente. - Então o comerei vivo.

Conor, sem saída, e se vê diante do teixo todas as noites. Ouvindo suas histórias sem entender o por quê delas, sem perceber que está sendo envolvido pelos laços da narrativa. O monstro como um ótimo contador nos coloca uma questão e nos confronta com a animalidade e vida das histórias, que uma vez que são colocadas no mundo, seguem livres, indomadas e desenfreadas pelo mundo.

As histórias saem pelo mundo, se envolvendo e se jogando, se somando à novas histórias e novas vidas. Assim como nossas histórias se enredam na história de Conor, a vida de Conor se mistura as histórias tecidas pelo Monstro. Conor se assusta, se frusta e se surpreende com as histórias do Monstro e nós - leitores - nos assustamos, nos frustramos e nos surpreendemos com Conor e suas verdades.

Mergulhe, abrace seu medo e junte-se a Conor. Quem sabe você descobre que tem verdades para dizer também.

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Escrito: por Júlia Gisler

P.S.: Esse livro foi recém adaptado para o cinema, e fica a dica, merece também ser assistido!

Sete minutos depois da meia-noite
Escrito por Patrick Ness
Traduzido por Paulo Polzonoff Júnior
Editora: Novo Conceito

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Mergulhando em Aves de María Julia Garrido e David Daniel Hernandéz

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O livro Aves chamou minha atenção desde a capa, tanto o estilo de gravura, quanto a escolha de usar preto e branco são muito interessantes, assim como a imagem da capa, um ganso, meio gordinho, voando, mas não da maneira tradicional, numa máquina de voar, solitário.

Abrindo o livro, logo antes da história começar a presença de uma pena meio molhada se destaca; aqui a experiência de participar de uma leitura dialógica finalmente começa, as diversas possibilidades que os participantes levantaram a partir daquela simples pena fizeram com que eu me impressionasse. E essa riqueza de visões se apresentou novamente, quando um guarda-chuva apareceu junto ao título da história Aves. Não foi um pássaro, uma pena, nem mesmo um ninho, mas sim um guarda-chuva, a imagem escolhida para representar o título, isso me deixou muito intrigada, e eu não pude deixar de refletir sobre a ligação desse objeto com a pena caída. 


Com o andamento da leitura começa a se formar um padrão, visível a, eu acredito, todos os presentes na sala. Esse mundo das aves, que geralmente é visto como alegre e colorido, nos é apresentado de uma maneira inédita, nessa versão as aves estão sempre apáticas e abatidas, num mundo cinza e com a atmosfera pesada. Já no começo, outro aspecto do livro se sobressai, a anatomia dos pássaros tem características muito humanas, como asas que mais parecem braços com mãos; patas escondidas dentro de sapatos e até mesmo a barriga de um deles parece muito mais com a de um homem acima do peso, do que a de um pássaro gordinho. Mas, infelizmente, essas não são as únicas semelhanças que encontramos entre as duas espécies. Durante todo o livro vemos um paralelo com a própria história da humanidade, isso fica mais claro a cada página. Encontramos a comparação do sistema solar baseado em ovos, que parece ser uma referência à teoria do geocentrismo, e as invenções deles que se pareciam tanto com várias invenções humanas. Além disso, há brigas e mortes dentro da própria espécie; a tentativa de usar a exploração de outros animais como lazer, e até mesmo a representação do cenário que me lembrou bastante a atmosfera de filmes e fotos que retratam a época da revolução industrial. 

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Voltando ao guarda-chuva, que causou uma curiosidade muito maior do que eu esperava. Em várias páginas, no meio de muitas discussões lá estava, sempre o misterioso guarda-chuva. E digo misterioso, pois em nenhum momento, há indicativos de chuva, ou mesmo de outras fontes naturais de água! Qual a necessidade de se ter um guarda-chuva sempre por perto? E justamente a partir dessa reflexão me veio a consideração de que talvez o curioso guarda-chuva fosse uma metáfora para o medo que esses pássaros sentem de algo que não sabemos e que talvez ocorrido antes mesmo do começo da história. Lembrei também daquela pena molhada, posicionada estrategicamente antes do título do livro. Imaginei a possibilidade de que uma tempestade muito forte tenha gerado um caos tão grande na vida dessas aves que elas tenham ficado traumatizadas. Talvez com medo de serem acometidos novamente por uma tragédia desse tamanho, elas tenham tentado a todo custo se proteger e tenham se perdido em algum lugar desse “desenvolvimento”, perdendo também sua essência. E essa triste realização se confirmou no final da história, no mesmo momento em que as esperanças, tanto dos pássaros quanto as minhas, são restauradas. Uma pequena filhote, diferente das outras aves, parece ter coragem suficiente para superar esse trauma coletivo e para tentar (re)aprender a voar.

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É claro que minha visão é uma das muitas que vieram ao longo da contação. E, talvez, tenha sido isso que mais se destacou para mim em toda essa experiência, a riqueza de pontos de vistas. Eu tenho certeza que as imagens projetadas no quadro eram as iguais para todo mundo, mas tenho mais certeza ainda que cada um de nós via algo diferente. Não existia certo e errado, existia o diferente, que inclusive, me fez perceber em cada imagem detalhes que eu não tinha visto antes. Lembro que alguém disse que a página onde apareceu um ganso em uma máquina de voar representava para ele uma crítica social. Na página onde vi uma briga de rua, viram guerras e até mesmo uma trágica cena de suicídio. Alguém acreditava que o guarda-chuva era um símbolo de status social e outro achava que era uma metáfora para as asas, agora inutilizadas, dos pássaros. 

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Eu realmente fiquei emocionada com a possibilidade de vivenciar isso junto a todo o grupo, e com a liberdade de poder compartilhar minhas próprias impressões e de, assim como todos os participantes, deixar de lado a posição passiva de ouvinte, para participar da evolução da leitura.

Escrito por: Gabriela Medeiros

Ficha Técnica:
Aves
Autores e Ilustradores: David Daniel Álvarez Hernández e María Julia Díaz Garrido

terça-feira, 4 de abril de 2017

Conversando sobre: Crianças e leitura


Convidamos todos a participarem conosco da palestra da queridíssima Profa. Dra. Eileen Pfeiffer Flores dia 06/04 (quinta) as 09:00 no auditório do bloco M na UCB (Universidade Católica de Brasília). Ela vai debater um pouco sobre nossas duas paixões: crianças e leitura. Não percam, a palestra é gratuita e aberta ao público!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Frankenstein ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley

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Sabe quantos anos tinha Mary Shelley quando começou a escrever Frankenstein? Dezoito. Ao redor da fogueira, ela e seus amigos se divertiam contando histórias assustadoras, Num dado momento, surgiu o desafio: que cada um dos amigos escrevesse sua própria história de terror. Dois anos depois, Mary Shelley publicava Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Nenhum dos amigos levou o desafio até o fim.

Numa inversão universalmente conhecida, as pessoas costumam dar o nome de Frankenstein à criatura, quando se trata, na verdade, do nome do criador. Quem não leu, geralmente, custa a aceitar essa informação: "Frankenstein só pode ser o nome do monstro". Talvez seja justo. Afinal, o que criamos é também um pedaço de nós. O tormento da criatura é o tormento de criador, Viktor Frankenstein.  O desejo da criatura de ser aceita reflete, em outro nível, a ambição de Viktor, que deseja ser reconhecido como um cientista brilhante que foi além de todos os limites e tornou-se capaz, como Prometeu, de dar a centelha da vida.

Acontece que esse Adão moderno é imediatamente rechaçado por seu criador. Não é rechaçado por nenhum ato indesejável, nem por uma falha moral ou de caráter, e sim por ser feio, repugnante, assustador.  Frankenstein, covardemente, abandona sua criatura e sente alívio ao imaginar ter se livrado desse filho que o constrangia. Esse filho que não saiu como ele imaginou, que não refletia suficientemente sua grandeza. Esse filho que não recebeu do pai aquilo que é o símbolo de aceitação, de reconhecimento, de responsabilidade: um nome próprio.

O filho sem nome busca, pois,  o amor. Nada mais. Vaga pelo mundo com a esperança de que alguém possa adotá-lo como seu. Quer pertencer. Mas ninguém o quer. Seus gestos de aproximação são interpretados como ameaças, suas tentativas de fazer-se ouvir, recebidas com terror e violência. Desesperado, acaba tornando-se o que o relegaram a ser: um monstro.

Soa familiar? Deu para ver como essa história, longe de ser apenas uma história assustadora, fala com a alma jovem e como toda(o)s nós?


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A obra foi escrita em uma época em que o conceito de adolescência ainda não estava consolidada. Já carrega, no entanto, todos os ecos do Sturm Und Drang que caracterizam nossa concepção de juventude até o dia de hoje.  A paixão da juventude é refletida tanto na ambição e vontade de saber desmesuradas de Viktor Frankenstein, quanto na desolação e no desespero que se instalam no coração do monstro. Não é à toa que um dos livros lidos pelo monstro ao tentar compreender a humanidade é justamente Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, ícone fundante da visão romântica da juventude como uma fase de paixão, fogo e tormento.

Por tudo isso e por ser simplesmente uma obra prima de ficção científica, terror e romance (tudo ao mesmo tempo),  Frankenstein ou o Prometeu Moderno, escrito há exatos 199 anos atrás por uma adolescente inquieta e genial, com certeza tocará o coração de jovens deste milênio. O Livros Abertos recomenda!


Escrito por: Eileen Pfeiffer